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Mayum mosaico de peças que não se encaixam direito, tentando se arranjar de qualquer jeito que faça algum sentido sobre uma matriz disforme e confusa.
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Maycheguei à conclusão de que sou um pouquinho perturbada demais pra fazer algumas coisas (p.ex.: viver).
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Maysabe quando pela primeira vez você não tem vontade de falar com ninguém sobre os seus problemas?
sabe, assim, desabafar? eu sempre precisei ficar de mimimi nos ombros de alguém pra me sentir melhor, mas agora, simplesmente, não quero externalizar o que sinto.
não sei bem o que significa. se o que sinto é tão bad e vergonhoso que não tenho coragem de desabafar com ninguém, ou se estou de fato sozinha, sem ninguém com quem contar.
de ambos os jeitos, acho que cheguei no fundo do poço. e o que não tem solução, solucionado está.
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Marsão oito da manhã e a chuva cai lá fora enquanto eu como um pão de queijo com café dormido, pensando que sou mesmo um caso perdido.
pela primeira (mas não única) vez em muito, muito tempo, volto a perder o sono por coisa boba. pensando no que poderia ser, no que eu queria que fosse, e, principalmente, no que não vai ser.
e meus pensamentos retornam às outras vezes em que isso aconteceu, perdida em devaneios, anotando elucubrações sobre o improvável, até sobre o impossível (ou pelo menos assim eu julgava ser), lamentando minha condição de impotência, até que o destino, como que para zombar de mim, ia lá e dava um jeito de fazer acontecer. e parece que era só pra isso mesmo: pra fazer graça comigo, pra me provar errada, e pra me iludir, claro, porque no final das contas nunca deu certo até o fim.
mas pensar que todas as vezes que eu desejei algo (me dando ao trabalho de escrever sobre a minha impossibilidade de alcançá-lo) e no final, de alguma forma inesperada, mágica, quase sobrenatural, acabou acontecendo, me enche de uma falsa esperança terrível, arrebatadora, debilitante. me enche de uma falsa convicção narcisista, arrogante, cheia de si, que me leva a crer que basta querer, basta admitir pra si mesmo e se permitir, que vai acontecer. me leva a crer que sou algum tipo de vidente, ou quem sabe algum tipo de semi-deus, que tem o poder de desejar e, a partir disso, simplesmente, fazer tudo acontecer. porque a verdade é que a vida inteira eu fui uma reclamona, cacarejando aos quatro ventos os infortúnios da vida, incapaz de acreditar na minha capacidade de fazer qualquer coisa funcionar. mas no fundo, tudo aquilo que eu realmente desejei, de coração, aconteceu, e me dar conta disso é a coisa mais assustadora que já me aconteceu.
pior do que estar perdido na escuridão, no limbo, sem esperança alguma - porque isso na verdade foi a única coisa que me libertou - é estar cegamente, desesperadamente, apaixonadamente agarrado à crença em um poder vulnerável, quiçá inexistente, que desde sua própria concepção é dúbio e incerto. eu não posso ter tudo o que eu quero, e por mais que fosse uma condição miserável, penso que talvez eu estivesse melhor sabendo, sentido isso com cada célula do meu corpo. assim, cada conquista era uma surpresa agradável. agora não passam de uma questão de espera paciente, até de certeza, construída sobre bases frágeis que eu mal sei de que exatamente são feitas. um peteleco o caos está instaurado.
estou no aguardo, com muito, mas muito medo das consequências.
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Maracho que eu sou só alguém com um pouco de sorte.
uma sorte inesperada, repentina, arrebatadora, que vem e se vai como uma ventania forte, varrendo as folhas, os papéis, os lençóis, os cabelos, a vida, deixando tudo deliciosamente revirado, só pra gente ter que, amargamente, voltar a arrumar depois. -
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Deca pessoa fica te enrolando por uns 2 meses, sempre arranjando uma desculpa pra não ficar com você, até que uma hora você perde a paciência e pede honestidade, diz que é melhor ser sincero do que ficar torturando os outros assim, prolongadamente, e, num momento de raiva, comete o erro de dizer que isso parece coisa de sociopata…
a pessoa se ofende, te bloqueia sem te dirigir a palavra, te bane de todos os âmbitos da vida dela permanentemente, e passa a ignorar qualquer tentativa de diálogo, bem como qualquer tentativa de pedir desculpa (pelo erro que ela mesma te induziu a cometer).
ok…
ser enrolado pode não ser motivo pra chamar alguém de sociopata. brincar com os sentimentos alheios, torturando alguém aos pouquinhos, aparentemente também não pode ser considerado coisa de sociopata.
mas, puta que pariu, isso não é coisa de sociopata?
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Decnatal é um saco.
por todos os motivos que todo mundo sabe e alguns mais.
eu nunca me afasto realmente da minha família, então natal pra mim não significa rever a família. pelo menos não a que eu considero - essa eu vejo semanalmente. claro que tem a família que eu não vejo muito, mas essa eu nem faço questão de ver. eles são escrotos. não escrotos no sentido em que todas as outras famílias são - chatas, falando alto, fazendo piada sem graça sobre o pavê, perguntando dos namorados. além disso, eles são escrotos mesmo. e a obrigação social de ter que vê-los é um peso que tenho que aturar nessa época.
além disso, eu não ganho mais presentes. poderia ser uma das únicas coisas legais do natal, mas não é, porque não acontece por diversos motivos.
também tem o fato de que eu não gosto de comida tradicional de natal. não gosto de fios de ovos, detesto uva passa, e aqui em casa todos os pratos são à base disso. acho um saco ter que ficar catando, e recebendo cara feia dos tios, certamente pensando “que guria mimada e enjoada!”
também não vejo sentido em comemorar uma data que segue o calendário religioso de uma doutrina que eu não acredito. acho chatíssimo essa coisa de “vamos esquecer um pouco o lado comercial do natal e lembrar do nosso querido aniversariante, o menino jesus”. blérgh. mas não é só isso. como se não bastasse, até mesmo as pessoas que também não seguem o catolicismo se tornam extremamente chatas nessa época, repetindo incansavelmente aos 4 ventos as contradições óbvias que essas festas trazem.
natal pra mim é isso. repetição.
é repetição da piada tosca do tio alcoólatra, repetição da reclamação a respeito da mesma piada. é repetição da lembrança do “verdadeiro espírito natalino”, e repetição da contradição de que esse espírito só vem nessa época. é repetição de que natal é uma data comercial, e repetição do “na hora de ganhar presente não reclama, né”. é repetição de tudo aquilo que eu acho feio e deplorável na raça humana, repetição de tudo aquilo que me faz perder a esperança na humanidade.
mas depois passa.
ainda bem que não é natal na maior parte do ano, e logo logo eu posso voltar a acreditar no bem das pessoas.
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DecO que me destrói sempre me apaixonou.
Acho que a felicidade não me satisfaz. Nunca me satisfez. E talvez por isso o que me é bom nunca me manteve por perto. Essa coisa de masoquismo existe: eu gosto de ser desafiada. E de falhar. Eu gosto de sofrer, porque só isso é capaz de me fazer sentir alguma coisa.
Vejam vocês, eu já tive muitos motivos pra chorar de alegria, e não o fiz. Isso porque as lágrimas de dor são muito mais saborosas, muito mais apaixonantes. A alegria te embriaga, mas é momentânea. Te usa, e depois te trai. Tão clichê quanto possa parecer, só o sofrimento é permanente.
De todas as coisas que eu quis, que eu realmente quis, todas elas não são fáceis. Quiçá impossíveis. Caso contrário, o que me faria levantar todos os dias pela manhã? Para ter cada desejo realizado, cada vontade concretizada, e no dia seguinte ter de procurar, no vazio, um outro objetivo para a vida?
Não. Isso nunca me fez feliz.
O que me destrói é o que me mantém interessada na vida.
O que me faz levantar todos os dias pela manhã.
Para falhar, e tentar novamente, e então falhar mais uma vez.
É isso o que eu sou, ou o que faço de mim. Uma série de sucessivas falhas que me rendem, vez ou outra, um escrito perturbador como esse.E tudo bem, porque acho que eu seria uma pessoa muito mais entediante se estivesse sempre sorrindo por aí.
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Deco tempo esculpiu baleias e girafas, ornitorrincos e pterodáctilos, esculpiu ratos e pessoas ao longo das eras. por que não acreditar que ele seja capaz de esculpir alguém melhor? vai ficar tudo bem. esse tal de tempo faz coisa, e tem um bocado de montanha e oceano aí como testemunha.
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Deceu cheguei à conclusão de que a falta de coisa nenhuma pode representar um peso pra gente.
depois de passar uma semana viajando de bicicleta, sem banho quente, sem cama confortável, com gêneros alimentares limitados, sem internet e sem contato com ninguém diferente daquelas 30 pessoas que viajaram comigo, eu percebi isso. nada me faltou. eu percebi como tanta coisa que a gente exige pra ser feliz são supérfluas, desnecessárias. foi vivendo com muito pouco ou quase nada que passei uma das melhores semanas da minha vida.
vivi esse sentimento, da abundância que a escassez te proporciona, com coisas físicas, mais diretas, como comida, sono, conforto. mas estou plenamente convencida e disposta a transpor isso para outros aspectos da vida. sou uma pessoa muito insatisfeita por causa das coisas que eu não posso ter, das vontades que eu não posso suprir, que vão desde coisas materiais (como um fone de ouvido que preste, um HD externo, um guarda-roupa) àquelas não-materiais (como amigos com quem eu possa contar, carinho, sexo).
eu pensei em tudo aquilo cuja falta me faz infeliz, e depois de muito pensar eu consegui compreender esses monges budistas, esses hare krishnas, que vivem uma vida de provação pra se elevar espiritualmente. eu não sou nem um pouco religiosa ou mística, mas me convenci de que existe um fundamento cognitivo muito forte nesse tipo de doutrina. as áreas do nosso cérebro que atuam sobre o nosso humor funcionam basicamente por mecanismos de recompensa, que liberam substâncias que nos deixam felizes quando são estimuladas por alguma coisa - de chocolate a orgasmos. o mecanismo do vício é simplesmente a incapacidade de produzir essas substâncias na ausência dos estímulos. mas o nosso cérebro é uma máquina fantástica, de uma plasticidade incalculável (por exemplo, se sofremos lesão em uma área, é possível estimulá-lo a cumprir as funções da área danificada através de outra parte intacta - com algumas limitações, é claro). me parece perfeitamente possível que sejamos capazes de educá-lo para a escassez, da mesma forma que a abundância pode moldá-lo tão facilmente para o vício. não é tão fácil, mas acredito que é exatamente isso que os adeptos dessas religiões fazem através do hábito das privações.
falo dessa parte cognitiva para não cair no pastelão. se eu dissesse que precisamos ser felizes a partir do nosso centro, que não devemos depender de nada nem de ninguém para nos completar, o tom do texto seria digno de um livro de auto-ajuda, e nem eu mesma me levaria a sério. mas é basicamente isso mesmo. as coisas que você consome acabam por te consumir.
eu não quero virar uma monja budista, nem quero me converter à religião hare krishna e viver uma vida de privações. eu não vejo mal em receber estímulos positivos de forma comedida, nem acho que virar um mendigo faz necessariamente a gente ser mais feliz do que virar um milionário. mas de fato a escassez tem me feito muito infeliz nos últimos tempos, de forma que tenho sentido a necessidade de me afastar dos estímulos positivos e me educar pra ser completa sem eles. não de uma forma definitiva, porque não vejo objetivo prático nisso, mas de uma forma que me permita não sofrer tanto na ausência deles. de uma forma que a abundância passe a ser um bônus, um plus, e não uma necessidade, uma condição obrigatória pro bem-estar e pra felicidade.
não sei bem como fazer isso ainda. eu não quero fazer greve de nada, mas no final das contas a minha vida tem sido tão ingrata que não vai ser difícil me encontrar em regime de privação de várias coisas. o que tenho feito é tentado me conformar da maneira mais serena possível com essas faltas. tem gente que precisa de uma religião, de uma crença, de algum tipo de espiritualidade pra conseguir se convencer e se conformar de que “it’s always darkest before the dawn”. isso não é necessariamente condenável, mas não funciona pra mim. eu prefiro acreditar na plasticidade do meu cérebro de se acostumar com essas situações, e é com a crença nele (ou, utilizando-se do auto-ajudês - acreditando em mim mesma) que eu vou passar por tudo isso e aprender a ser feliz com o pouco que eu posso ter.